segunda-feira, 22 de junho de 2009

O CORPO QUE VIROU PAPEL


A tatuagem no Brasil parece ter surgido como uma resposta à adversidade social, que teria propagado a prática desde que D. João VI abriu nossos portos ao comércio estrangeiro, facilitando o contato de marinheiros com a população litorânea. A professora Célia Maria Antonacci Ramos, da Universidade do estado de Santa Catarina, afirma que a tatuagem começou por aqui praticada "nas horas de inatividade dos habitantes das ruas periféricas", em geral, de nossas cidades portuárias. Nesse caso, o corpo é, para quem não tem posse ou bem capitalista, o único suporte da escrita.
Segundo Célia Antonacci, a tatuagem não foi sempre praticada com o propósito estético, mas também discursivo. A tatuagem é ela mesma um procedimento de escrita no corpo humano. Talvez seja o procedimento de escrita mais antigo do homem.
A modalidade verbal, porém, é praticamente restrita. O idioma do corpo é predominantemente a imagem. Por isso, a recente incidência da tatuagem verbal virou razão de espanto. É a era da morfologia corporal, que vê no corpo um signo, uma convenção arbitrária.
O tatuador Tino diz que, no Brasil, a prática só virou rotina nestes cinco anos.
A tatuagem comunicaria hoje um sentido independente de cada palavra ou imagem particular. O tatuado sugere que é gestor de si. As trocas que faz não teriam relação direta com o sistema capitalista, mas com a cultura e a comunicação - afirma Célia.
As mensagens no corpo são símbolos de compromisso, marca de identidade, forma de protesto. O espectro de possibilidades verbais para as tatuagens responde por um número limitado de tipos, que são distintos dos modelos feitos só com desenhos.
Podemos classificar as mensagens verbais como: declarações de amor (mensagens "cifradas", mesmo em idiomas estrangeiros, para a pessoa amada), homenagem com os nomes dos entes queridos, declaração de fé ou busca de proteção divina, através de versículos e salmos, protesto e mídia (corpo como "lugar" próprio, a causar impacto comparável a suportes midiáticos).
Há a sedução pela palavra tatuada. Um alvorecer para a palavra à flor da pele.

Na imagem acima, temos uma frase tatuada nas costas, uma frase"filosófica".
Nela há um desvio da norma padrão da língua: "As grades prende nossos corpos mas não o nossos pensamento..."
De acordo com as regras gramaticais da gramática normativa, a correta frase seria tatuada assim: "As grades prendem nossos corpos , mas não os nossos pensamentos..."
(A oração coordenada assindética -" as grades prendem nossos corpos", seria separada por vírgula da oração coordenada sindética adversativa - "mas não os nossos pensamentos").

Quer saber mais sobre o assunto? Leia "Tatuagem, Piercing e Outras Mensagens do Corpo", de Leusa Araújo e assista ao filme "O Livro de Cabeceira" (1996), de Peter Greenaway.

(Retirado da Revista Língua Portuguesa - 2008).

NOTÍCIA EXTRAORDINÁRIA
A atriz pornô russa Anna Morgan assinou um contrato com o site MyMMOShop.com, especializado na venda de games online para múltiplos jogadores (MMO, na sigla em inglês) como o famoso World of Warcraft (WoW), para tatuar a marca da empresa nos seios. De acordo com o site "Russia Today", a moça receberá US$ 500 mil pela tatuagem-propaganda composta de logo e endereço do site e deverá ostentá-la por um período de dois anos.
Esse é um exemplo do corpo usado como mídia.

(www.globo.com.br).




(www.globo.com.br)

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